quinta-feira, 7 de abril de 2011

Sorvendo os lumes do tempo

 

Sorvendo os primeiros lumes
Que a madrugada cerzia
Num corpo que a estampa franzia
Lembrando algum traço ancestral
Seus olhos buscavam no sal
Os restos inconstantes de ontem
que se perderam em repontes
marcando igual ferro o carnal

e ali na solidão do seu mate
talvez revirando um domingo
que o tempo mal tenha benzido
por ser bem mais tempo que espera
de algum namoro à primavera
e o índio trazia em seus lábios
um gosto de doce amargo
que a prenda deixou por quimeras

talvez o que passe aos seus olhos
são tropas pelos corredores
a sina que trouxe os valores
changueados por dias incertos
se fazem agora mais perto
por traz dos relances da aurora
se agranda no campo a fora
num dia a ser descoberto

quem sabe nem fora saudade
que passa aos olhos do índio
talvez possa ser um municio
ou pressagio que há de porvir
pra quem já traçou o existir
e agora se sorve de lumes
não sente a dor deste gume
que a morte lhe há de servir

mateia sem pressa amigo
que o mate lhe traga o consolo
e a morte que ronda teu couro
lhe seja a mais branda e honesta
se achegue de asas abertas
de manso sem muitos alardes
e te leve nalgum fim de tarde
pro rancho da vida eterna


Francisco Farias- Lua cheia Março de 2008

contraponto de vida e gente


Trazia tristeza profunda
nos olhos gastos e rotos
guardando pontas de noite mal dormida

trazia na alma, feridas e um rosto
encardido dos jornais
que por hoje fora seu travesseiro

os cabelos enfumaçados
exalam odores das fogueiras
que encandeiam madrugadas frias

na roupa fedida,
buscava sobras de mangas
pra se proteger do frio
agradeceu o pão, sorriu...
e sentou-se a beira da calçada

depois, ficaram as migalhas e farelos
de um pão quente que por um instante
matou a tristeza, nos olhos daquela pessoa

Francisco Farias - Julho de 2008 - minguando lua

Na volta da tropeada grande

três homens montados
Na volta da tropeada grande
enrolando seus desejos e saudades
Na palha molhada do seu cigarro
Companheiro este que ameniza as penas
de dores que se igualam as nazarenas
riscando o carnal da alma

Pelo cansaço nem mesmo  coplas,
saudades, nem mais assovios brotam
pelas bocas secas que a mais de meio dia
não sorvem  mates e ainda guardam
o gosto salobro da ultima cacimba,
pousada de tantas léguas atras

depois de muito tempo, chuvas
relentos, mormaceiros.
E de suportar a dor que um homem
é capaz de sentir, o que mais
importa agora é seguir
ao encontro da querência,
xirua morena,
que no dia da partida ficou na janela

abanando uma despedida
soluçada de saudade branca
tal o lenço que enxugava o pranto dos
seus olhos verdes vendo os
tropeiros se apequenarem
em meio aos beirais da estrada
enfumaçados pela poeira levantada
das patas dos cavalos

alados nos sonhos das suas prendas
para que as distâncias se encurtassem
e mais depressa chegassem
até seus catres perfumados de alecrim


agora a estrada chegando ao fim
mal a benção da despedida e o peão
em frente ao rancho muda o semblante
uma xirua a sua espera com ares de primavera
e olhos negros, grandes de saudades
mescla um sorriso às gotas prateadas
de lagrimas puras, guardadas
pro reencontro esperado


Mas, pra dois a estrada segue, Feliz deste que teve a sorte
Teve esperas com sorrisos, a estas horas
Sorve os beijos, guardados por mais de mês
Hão de trocar desejos num quarto escuro
Com cantigas de grilos e sussurro
E certamente as luas lhe trarão certezas
do amor no choro tenro de rebentos


dois homens, e o caminho encurtando
e a cada passo chegando mais perto
das portas que aguardam mais um
com cheiro de bóia boa e gosto de lábios doces
que por alguns instantes nem sabiam
se outro dia  sentiriam de volta o gosto
e o cheiro da bóia e da prenda

de longe se ouve os gritos
de felicidade dos filhos do tropeiro
por ver que o pai voltou inteiro
trazendo mimos comprados por Sorocaba,
doces de leite e goiabadas, que talvez tropearam junto
na bruaca de algum mascate vindo das minas gerais


agora só eu nessa estrada,
não tenho pressa nem namoros a me encontrar
não tenho choro de filhos a me esperar
pra mim me basta um corredor, a tropa  e a estrada,
no meu rancho quase nada, não me aguarda bóia pronta,
nem mesmo lábios doces por espera
com sorrisos de primaveras que me venha dar amor
pois por mais que encontre dor, mormaceiros, temporais
me sentirei soberano por ser um qualquer vaqueano
nesses caminhos ancestrais





Francisco farias, Lua crescente, Junho de 2008

quarta-feira, 6 de abril de 2011

poemas para a tapera

" casa velha desabitada" pra os que passam despercebidos,
resto de barro e madeira acumulando cupins, pra os que olham sem ver!
Ruínas que o tempo rumina na lentidão das auroras,
onde a chuva cai lenta e carrega de alento
um barro vermelho que escorre das paredes,
tal sangue jorrado pelas feridas da alma.
Casa de pouso bom, de sonhos que se gastaram
pelas distâncias dos anos que foram embora,
levando consigo ancestrais criadores,
que ergueram paredes,
baldrames e telhados de santa-fé.
Jovens que tinham sonhos e os tornaram possíveis,
forjando sorrisos e rebentos pro mundo!
Tendo um porto seguro por morada,
onde as criações de porcos, ovelhas e vacas pampas,
rodeavam o galpão e os cuscos esperavam a mulher bater a toalha,
para dividir as migalhas de pães com galinhas famintas
e pintinhos recém chocados.
Cacimba de aguada boa, gelada pros dias mais quentes,
onde guris traziam a lata pingando e molhando o assoalho,
recém limpo a vassoura de guanxuma e pano com querosene!
Luz de lampião a noite vazava nas frestas,
pouco a pouco se iam ao pouso os que la habitavam.
Uma coruja rodeava a varanda,
os filhos pediam a benção aos pais,
que aguardavam o silêncio pra trocar carinhos nas noites banhadas de luar.
Agora é apenas tapera, ruínas de tempo e lembrança,
já não habita a criança que la brincou pelas tardes!
Os velhos se foram embora, os filhos, a cidade consumiu!
A terra ficou pra partilha de moços que nunca pisaram o chão!
Assim te enxergo tapera, com olhos de nostalgias
e pesares que açoitam e derramam lágrimas
da cacimba dos olhos a cada vez que passo na estrada
e percebo tua tristeza na janela quase caída...

Francisco Farias - outubro de 2009