Cinco minutos... mãe!
Chico Teixeira Farias
“Ah mãe...
por favor, só mais cinco minutos
Ta tão
quentinho aqui debaixo do acolchoado...”
E minha mãe,
olhava com olhos ternos,
mas não
afrouxava;
“Não senhor,
pode levantar!
Vai se
atrasar pra aula guri...Vamo!”
E lá ia eu,
encarangado de frio
Lavar o
rosto na água gelada
onde por
vezes o inverno congelava
e não havia
cristo que fizesse
a água correr na torneira
Mas, o
sofrimento era curto,
logo adentrava a cozinha
já aquecida
pelo fogão a lenha
onde a chapa
era tão limpa
que refletia
meu rosto sonolento
e cabelos
despenteados
Como era bom
abrir a cortina florida
Que separava
a sala e os quartos da cozinha,
Pois ao
abri-la, como num ato teatral,
um saboroso
perfume invadia,
Uma mistura
de madeira queimando, café passado
Feijão cozinhando
e pão assado
Tudo isso,
no mesmo instante, no velho fogão
Talvez por
esse motivo, o melhor lugar da casa,
quando não
era debaixo do acolchoado era na cozinha,
pois lá o rádio trazia as notícias,
as músicas
que acompanhavam a labuta da mãe
e o “Psiu!”dela
na hora do horóscopo.
Ai de quem
não respeitasse esse seu momento!
Ali se
mateava, se ouvia os conselhos, broncas
fazia a
lição sob seu olhar tenaz,
e se comia a
melhor das refeições sobre a mesa larga
e bancos compridos, eu, meus irmãos, meu pai e minha
mãe...
Aliás, não
lembro muito de minha mãe
em outros
lugares além da cozinha e quintal,
pois como
obrigação, talvez por escolha,
ela
resumiu sua vida a cuidar da casa marido
e dos filhos
era a única
que não podia ter mal estares, preguiças,
má vontade,
estava
sempre a postos à cumprir seu mister
ora no banho
dos mais novos, na boia,
nas
enfermidades, gripes, machucados dos filhos
e também
para atender prontamente as vontades de meu pai
Ainda à mesa
na hora do café
Enquanto
comia uma fatia gorda de pão com ximia
Ela
alcançava o lanche do colégio, era um pão, manteiga,
E quando
sobrava carne da janta, picava em delicados pedaços
Misturava tomates
e acomodava carinhosamente
essa mistura entre as fatias do pão, um para
cada filho,
então,
saíamos apressados à aula,
sob os olhos
atentos dela,
até onde a
rua fazia a curva.
Mas tinha
uma mania que me irritava,
era a
conferida na roupa e nos cabelos
Pois não
admitia que seus filhos fossem chamados de “mulambentos “,
e caso havia
um resquício de pão, manteiga ou doce no rosto,
ligeiramente
levava a língua ao polegar e esfregava limpando o local...
Aos
domingos, ela ficava tão bela,
Como eu
adorava esse dia!
Pois minha
mãe remoçava, penteava o cabelo
Colocava um
vestido florido,se perfumava,
e o perfume
era de verdade,
não aquele
que o fogão teimava em impregnar ,
meu pai até
sentia ciúmes de tão linda que estava ela
em sua roupa
domingueira, a de ir à missa.
Todos nós usávamos a melhor roupa,
sapatos lustrados e cabelos rigorosamente
penteados,
mas confesso
que pra mim era o martírio,eu não podia fazer nada!
pular nas
poças d´água, correr no gramado, jogar pedra.
-Para quieto
guri, fica aqui do meu lado, vai se sujar!
E assim seguíamos
caminhando até entrar na igreja,
não antes de
minha mãe dar a conferida costumeira.
Foi tão
rápido, não imaginava que esse tempo passaria,
Pra mim era
eterno, como o meu acolchoado,
Como a
cortina que se abria, como o perfume da cozinha,
Como a sua
força e beleza que o tempo desenhou cicatrizes
em suas mãos e rosto.
Como me faz falta isso tudo!
E eu só gostaria de te pedir novamente,
“Ah mãe...
só mais cinco minutos, ta tão quentinho teu colo!”



