terça-feira, 27 de agosto de 2013

Cinco minutos...mãe!



Cinco minutos... mãe!
Chico Teixeira Farias

“Ah mãe... por favor, só mais cinco minutos
Ta tão quentinho aqui debaixo do acolchoado...”
E minha mãe, olhava com olhos ternos,
mas não afrouxava;
“Não senhor, pode levantar!
Vai se atrasar pra aula guri...Vamo!”
E lá ia eu, encarangado de frio
Lavar o rosto na água gelada
onde por vezes o inverno congelava
e não havia cristo que fizesse
 a água correr na torneira

Mas, o sofrimento era curto,
 logo adentrava a cozinha
já aquecida pelo fogão a lenha
onde a chapa era tão limpa
que refletia meu rosto sonolento
e cabelos despenteados

Como era bom abrir a cortina florida
Que separava a sala e os quartos da cozinha,
Pois ao abri-la, como num ato teatral,
um saboroso perfume invadia,
Uma mistura de madeira queimando, café passado
Feijão cozinhando e pão assado
Tudo isso, no mesmo instante, no velho fogão

Talvez por esse motivo, o melhor lugar da casa,
quando não era debaixo do acolchoado era na cozinha,
pois  lá o rádio trazia as notícias,
as músicas que acompanhavam a labuta da mãe
e o “Psiu!”dela  na hora do horóscopo.
Ai de quem não respeitasse esse seu momento!
Ali se mateava, se ouvia os conselhos, broncas
fazia a lição sob seu olhar tenaz,
e se comia a melhor das refeições sobre a mesa larga
e bancos  compridos, eu, meus irmãos, meu pai e minha mãe...

Aliás, não lembro muito de minha mãe
em outros lugares além da cozinha e  quintal,
pois como obrigação, talvez por escolha,
ela resumiu  sua vida a cuidar da casa marido e dos filhos


era a única que não podia ter mal estares, preguiças,
má vontade,
estava sempre a postos  à cumprir seu mister
ora no banho dos mais novos, na boia,
nas enfermidades, gripes, machucados dos filhos
e também para atender prontamente as vontades de meu pai


Ainda à mesa na hora do café
Enquanto comia uma fatia gorda de pão com ximia
Ela alcançava o lanche do colégio, era um pão, manteiga,
E quando sobrava carne da janta, picava em delicados pedaços
Misturava tomates e acomodava carinhosamente
 essa mistura entre as fatias do pão, um para cada filho,

então, saíamos apressados à aula,
sob os olhos atentos dela,
até onde a rua fazia a curva.

Mas tinha uma mania que me irritava,
era a conferida na roupa e nos cabelos
Pois não admitia que seus filhos fossem chamados de “mulambentos “,
e caso havia um resquício de pão, manteiga ou doce no rosto,
ligeiramente levava a língua ao polegar e esfregava limpando o local...


Aos domingos, ela ficava tão bela,
Como eu adorava esse dia!
Pois minha mãe remoçava, penteava o cabelo
Colocava um vestido florido,se  perfumava,
e o perfume era de verdade,
não aquele que o fogão teimava em impregnar ,
meu pai até sentia ciúmes de tão linda que estava ela
em sua roupa domingueira, a de ir à missa.

 Todos nós usávamos a melhor roupa,
 sapatos lustrados e cabelos rigorosamente penteados,
mas confesso que pra mim era o martírio,eu não podia fazer nada!
pular nas poças d´água, correr no gramado, jogar pedra.
-Para quieto guri, fica aqui do meu lado, vai se sujar!
E assim seguíamos caminhando até entrar  na igreja,
não antes de minha mãe dar a conferida costumeira.


Foi tão rápido, não imaginava que esse tempo passaria,
Pra mim era eterno, como o meu acolchoado,
Como a cortina que se abria, como o perfume da cozinha,
Como a sua força e beleza que o tempo desenhou cicatrizes
 em suas mãos e rosto.
 Como me faz falta isso tudo!
 E eu só gostaria de te pedir novamente,


“Ah mãe... só mais cinco minutos, ta tão quentinho teu colo!”