Quando te vejo, tapera bendita
Meus olhos teimam enxergar outro tempo
Talvez fantasmas rodeiam teu cerne
Dos que por muito habitaram teu seio
um homem que tinha sonhos morenos
de ser família junto a prenda mais bela
E sol a sol foi te erguendo em paredes
Pra ser morada de muitas primaveras
Bebeu serenos forjando seu mundo
Gastou as mãos cepilhando a madeira
Porta e janela pra espera das voltas
Sombreando a tarde de alguma paineira
A noite as frestas na janela do quarto
Vinham banhar de estrelas sua linda
iluminando o corpo moreno
Que aos seus olhos era mais bela ainda
E vi as luas trazer choro manso
Na vida tenra do filho que nasce
vertendo aguada na negra retina
do homem que trazia risos na face
Depois, vi o tempo branqueando o cabelo
A idade tornando a estampa mais velha
O filho atrás de seus sonhos morenos
A linda a seus olhos continuava tão bela
O ciclo da vida lhe cerrou os olhos
Num resto de tarde d´alguma primavera
E a morada que um dia floriu alegrias
Agora sucumbe na velha tapera

