domingo, 25 de março de 2012

MEUS OLHOS DE TAPERA

Quando te vejo, tapera bendita
Meus olhos teimam enxergar outro tempo
Talvez fantasmas  rodeiam teu cerne
Dos que por muito habitaram teu seio

um homem que tinha sonhos morenos
de ser família junto a prenda mais bela
E sol a sol foi te erguendo em paredes
Pra ser morada de muitas primaveras

Bebeu serenos forjando seu mundo
Gastou as mãos cepilhando a madeira
Porta e janela pra espera das voltas
Sombreando a tarde de alguma paineira

A noite as frestas na janela do quarto
Vinham banhar de estrelas sua linda
iluminando o corpo moreno
Que aos seus olhos era mais bela ainda

E vi as luas trazer choro manso
Na vida tenra do filho que nasce
vertendo aguada na negra retina
do homem que trazia risos na face

Depois, vi o tempo branqueando o cabelo
A idade tornando a estampa mais velha
O filho atrás de seus sonhos morenos
A  linda a seus olhos continuava tão bela

O ciclo da vida lhe cerrou os olhos
Num resto de tarde d´alguma primavera
E a morada que um dia floriu alegrias
Agora sucumbe na velha tapera
 (Chico Farias - Março de 2012)

segunda-feira, 12 de março de 2012

Pirogravuras

Agradeço a Lauren de Bacco do Blog Alma de ferro por me inspirar e deixar
eu fazer essa pirogravura baseada em sua obra "tostado Malacara"

quarta-feira, 7 de março de 2012

ASSIM FOI MEU PAI

Imagem de Lauren de Bacco "Alma de Ferro"
    Meu pai não calçava esporas nem botas de garrão de potro
pois não trazia consigo a vivência das estâncias
onde os peões sorviam ânsias com mate e charlas compridas
... mas ainda assim, foi da lida, gaúcho de fundamento!

Pois riscou a terra bruta com marachas e canais
que levavam aguada boa pelas lavouras em flor
tornando o sul mais fértil, no verde das plantações
refletindo seu suor na fartura das cidades
eo prato cheio da sociedade desconhecia seu labor

meu pai não tosquiava ovelhas no bate bate do martelo
em comparsas que cruzavam os janeiros mormacentos
onde a lã se acumulava na figueira estendida
mas ainda assim, foi da lida, gaúcho de fundamento!

pois demarcava limites pralguma divisa lindeira
apaziguando disputas, heranças de coronéis
onde mal esfriava o corpo do finado no caixão
e surgiam descendências reclamando seu pedaço
cortando a terra como aço rabiscando nos papeis

Meu pai não assinalava nem vacinava a rês
nem mesmo curava bicheiras que molestavam o rebanho
tampouco fazia causo de vaca parindo a vida
Mas ainda assim, foi da lida, gaucho de fundamento!

Pois garantia a bóia dos que ficavam por casa
Pra que tivessem mais sorte, forjando a própria essência
Em livros e cadernos rabiscando aprendizado
Queria filhos formados, não media seu esforço
“Que a vida é um jogo de osso e o culo a conseqüência!”

Meu pai não vestia bombachas nem guaiaca ou tirador
Nem pendurava o chergão guardando o suor de cavalos
Nem mesmo tinha arreios pra usar em montarias
Mas ainda assim, foi da lida, gaucho de fundamento!

Pois trazia a poeira das estradas no seu rosto
A dureza das palavras mesclada de olhar teso
Pois foi assim que aprendeu e assim se há de ensinar!
Aos poucos deixava escapar algum carinho das mãos
Que amolecia o coração quando ganhava um beijo.
(Chico Farias)