O
VELHO DO BANCO DA PRAÇA.
Autor:
Francisco Farias
O banco da praça amanheceu vazio...
orvalhado pelo tempo,
coberto com as folhas do cinamomo
O banco da praça amanheceu vazio...
orvalhado pelo tempo,
coberto com as folhas do cinamomo
que teimam em cair a cada outono
na eterna rotina que a mãe terra criou
para que a renovação da vida se enrodilhe
tal o ciclo das estações e na sua ordem natural
nascer, crescer, envelhecer e morrer.
O banco da praça amanheceu vazio...
por anos a fio fora o lugar favorito
de um velho que sorvia auroras num mate recém cevado
temperado a jujos de carqueja
e palheiro de um fumo amarelido
ali solitário, passava as horas conversando com sí próprio
ou com algum amigo que de quando em quando parava,
na eterna rotina que a mãe terra criou
para que a renovação da vida se enrodilhe
tal o ciclo das estações e na sua ordem natural
nascer, crescer, envelhecer e morrer.
O banco da praça amanheceu vazio...
por anos a fio fora o lugar favorito
de um velho que sorvia auroras num mate recém cevado
temperado a jujos de carqueja
e palheiro de um fumo amarelido
ali solitário, passava as horas conversando com sí próprio
ou com algum amigo que de quando em quando parava,
tomava dois ou três mates
depois seguia em sua charrete
pintada de azul e vermelho
por um largo tempo, eu vi o velho homem
desde a minha infância o mesmo ritual
bombacha puída, a boina surrada
e alpargatas rotas mostrando os rigores
nos calcanhares rachados
e no semblante judiado, as rugas
como cicatrizes de uma vida de labor
afloravam a pele
Era certeiro, pontual, mal amanhecia e lá vinha o velho
atravessando a rua com seus passos curtos, mas firmes
trazia o chimarrão na mão, pacote de fumo e palha na outra
e debaixo do braço, um rádio de antena remendada
num chiadeiro mal sintonizado,
depois seguia em sua charrete
pintada de azul e vermelho
por um largo tempo, eu vi o velho homem
desde a minha infância o mesmo ritual
bombacha puída, a boina surrada
e alpargatas rotas mostrando os rigores
nos calcanhares rachados
e no semblante judiado, as rugas
como cicatrizes de uma vida de labor
afloravam a pele
Era certeiro, pontual, mal amanhecia e lá vinha o velho
atravessando a rua com seus passos curtos, mas firmes
trazia o chimarrão na mão, pacote de fumo e palha na outra
e debaixo do braço, um rádio de antena remendada
num chiadeiro mal sintonizado,
onde o locutor falava de quermesses,
velório, polícia
e quando não havia mais notícias,
tocava um tango bem compassado
e quando não havia mais notícias,
tocava um tango bem compassado
que até fazia brotar um sorriso
encabulado
da boca do velho homem
até chegar ao seu banco, e Deus o livre se outro sentasse ali!
o velho quase que atropelava, sentava
resmungava uns palavrões até que o abençoado
se tocasse e buscasse outro banco
para descansar as pernas
da boca do velho homem
até chegar ao seu banco, e Deus o livre se outro sentasse ali!
o velho quase que atropelava, sentava
resmungava uns palavrões até que o abençoado
se tocasse e buscasse outro banco
para descansar as pernas
nos dias de chuva lá de casa
eu via a inconstância do velho
olhar de espio pro céu, embaçando o vidro da janela
tal como rogasse aos santos que a chuva parasse
pois a solidão do seu rancho parecia lhe fazer mal
Talvez os olhares nos retratos da parede
lhe trouxessem fantasmas e recordações
dessa gente que agora lhe faz tanta falta
ou quem sabe o barulho da chuva nas telhas de zinco
e o sopro do vento nas frestas
lhe fizessem recordar o alarido
das crianças correndo pela casa
num tempo que não volta mais
ou então a fumaça do fogão, lhe trouxesse a boca
o gosto das chimias e o perfume das ambrosias
que só a sua saudosa linda sabia fazer
e agora, pra disfarçar essa falta
o velho busca no banco da praça
um mundo para fugir da dor
e eu, muitas vezes maleva
pela inocência que a infância não nos permite enxergar
interrompia os seus silêncios com brincadeiras e gritarias
apenas para provocar o velho que atormentava os meus sonhos
pois acreditava que ele era o velho do saco,
eu via a inconstância do velho
olhar de espio pro céu, embaçando o vidro da janela
tal como rogasse aos santos que a chuva parasse
pois a solidão do seu rancho parecia lhe fazer mal
Talvez os olhares nos retratos da parede
lhe trouxessem fantasmas e recordações
dessa gente que agora lhe faz tanta falta
ou quem sabe o barulho da chuva nas telhas de zinco
e o sopro do vento nas frestas
lhe fizessem recordar o alarido
das crianças correndo pela casa
num tempo que não volta mais
ou então a fumaça do fogão, lhe trouxesse a boca
o gosto das chimias e o perfume das ambrosias
que só a sua saudosa linda sabia fazer
e agora, pra disfarçar essa falta
o velho busca no banco da praça
um mundo para fugir da dor
e eu, muitas vezes maleva
pela inocência que a infância não nos permite enxergar
interrompia os seus silêncios com brincadeiras e gritarias
apenas para provocar o velho que atormentava os meus sonhos
pois acreditava que ele era o velho do saco,
que roubava crianças,
mal sabia eu sobre as necessidades de um homem solitário,
sobre a importância de um momento pra si,
sobre as dores de uma saudade
mas aos poucos o tempo me fez entender,
e o medo virou respeito e admiração
pois fui compreendendo seus silêncios
e seus cabelos ralos e brancos
e fui entendendo as suas saudades
o banco da praça amanheceu vazio...
como outras vezes já havia amanhecido
mas hoje, não houve chuvas nem temporais,
apenas a morte lhe bateu a porta
e se chegou de manso, sem dor...
Na hora do mate, no rancho aquecido
o velho fogão fumaceando a lenha,
a chaleira preta chiando a água,
a cuia com o mate que hoje não lavou
e o rádio a pilha tocando um tango...
mal sabia eu sobre as necessidades de um homem solitário,
sobre a importância de um momento pra si,
sobre as dores de uma saudade
mas aos poucos o tempo me fez entender,
e o medo virou respeito e admiração
pois fui compreendendo seus silêncios
e seus cabelos ralos e brancos
e fui entendendo as suas saudades
o banco da praça amanheceu vazio...
como outras vezes já havia amanhecido
mas hoje, não houve chuvas nem temporais,
apenas a morte lhe bateu a porta
e se chegou de manso, sem dor...
Na hora do mate, no rancho aquecido
o velho fogão fumaceando a lenha,
a chaleira preta chiando a água,
a cuia com o mate que hoje não lavou
e o rádio a pilha tocando um tango...

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