sexta-feira, 19 de julho de 2013

poemas para a tapera - Chico Teixeira Farias




Poemas para a tapera

" casa velha desabitada"
 pra os que passam despercebidos.
Resto de barro e madeira acumulando cupins,
 pra os que olham sem ver!
Ruínas que o tempo rumina
 na lentidão das auroras,
onde a chuva cai lenta
e carrega de alento um barro vermelho
que escorre das paredes
tal sangue jorrado pelas feridas da alma.


Casa de pouso bom...
de sonhos que se gastaram
pelas distâncias dos anos que foram embora,
levando consigo ancestrais criadores,
que ergueram paredes,baldrames
 e telhados de santa-fé.

Quantos os que te ergueram?...eu não sei,
Mas, ao te olhar assim,
tão sozinha, ainda os vejo.
Não com meus olhos desnudos
que só enxergam o que é material.
Mas com minha alma, que é antiga
vagou pelo mundo, transcendeu o tempo,
pois é peregrinae me enfeitiça
a cada visagem daqueles que um dia 
fizeram morada.

Eu vi alguns homens sovando o barro,
outros talhando o cerno cambará
um carro de bois com feixos de palha
aos poucos moldavam o sonho de um lar 


e vi o alvoroço na hora da boia!
Que foi ajeitada de baixo da figueira
Pelas mãos das mulheres desses moços
que aguardavam o cincerro bater
no descanso do sol a pino,
e tragueavam um gole de pura
pitando um palheiro
depois, tiravam a sesta
que a tarde é cumprida
e a empreitada não é pouca.

A porta se abrir na primeira vez
Entrando uns poucos móveis
a habitar os espaços
Logo mais a chaminé erguerá fumaças
E a casa ganhará aromas de alecrim
É o ciclo que se inicia na nova morada

E os jovens que tinham sonhos
os tornaram possíveis,
forjando sorrisos e rebentos pro mundo!
agora escrevem a sua própria história
por terem um lugar que é seu!

As luas trouxeram o choro tenro
A cada filho que ali nasceu
e a medida que o tempo passava,
Corriam pelo terreiro, caçavam com bodoques
Andavam nos seus petiços
E faziam laúza no hora de dormir

Que belo o lugar!
As criações de porcos,
ovelhas e vacas pampas,
rodeavam o galpão.
O cusco aguardava a mulher bater a toalha,
para dividir as migalhas de pães
com galinhas famintas
e pintinhos recém chocados.

Na cacimba, a aguada boa,
gelada pros dias mais quentes,
onde guris traziam a lata d'água  pingando
e molhando o assoalho recém limpo
a vassoura de guanxuma
e pano com querosene!

A noite,
luz de lampião vazava nas frestas,
aos pouco
 se iam ao pouso
 os que habitavam.
Uma coruja rodeava a varanda,
os filhos pediam a benção aos pais,
que aguardavam o silêncio 
pra trocar carinhos
nas noites banhadas de luar.

O ciclo da vida  cobrou o seu preço
A mão que ergueu a casa
agora enrugada, segura o terço
num caixão a quatro velas
na sala com visitas tristes.
A viúva enlutada em manto negro
mesmo com lágrimas a riscar seu rosto
entende que o tempo lhe foi generoso

O mesmo tempo que branqueou os cabelos,
e enrugou a pele macia da moça,
curvou o semblante da velha morada.
E a porta se fecha pela última vez...

Agora é apenas tapera,
ruínas de tempo e lembrança,
já não habita a criança
que lá brincou pelas tardes!
Os velhos se foram embora,
os filhos, a cidade consumiu!
A terra ficou pra partilha
de moços que nunca pisaram o chão!

Assim te enxergo tapera,
com olhos de nostalgias
e pesares que açoitam
e derramam lágrimas
da cacimba dos olhos
a cada vez que passo na estrada
e percebo tua tristeza
na janela quase caída...

“...Casa Velha desabitada,
pra os que olham sem ver!”


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